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“Para o Xingu continuar vivo, a gente tem que fiscalizar”

Josefa de Oliveira, do Conselho Ribeirinho, fala da resistência contra os megaprojetos no Pará

03 agosto 2018

- por Cristina Camargo -

Josefa em Encontro de Projetos realizado pelo Fundo Brasil em 2017 (Foto: Ernesto Rodrigues)

O Conselho Ribeirinho foi criado em Altamira, no Pará, para cobrar do consórcio empresarial responsável pela construção da hidrelétrica de Belo Monte os direitos das famílias que viviam nas ilhas e margens do rio Xingu. São famílias removidas compulsoriamente de suas casas para dar lugar ao reservatório da hidrelétrica.

Josefa de Oliveira Câmara da Silva é uma das líderes do movimento dos ribeirinhos, hoje conhecido e respeitado no país todo. A atuação do conselho é apoiada pelo Fundo Brasil.

Ela conta essa experiência no oitavo depoimento da série #DefensorXs.

Confira

“Eu sou filha de ribeirinhos. A parte materna são ribeirinhos do Alto Xingu, negros e índios. Nasci na cidade de Altamira, fui criada no Beiradão do rio Xingu, fui para a cidade para estudar. Hoje estou cursando geografia e participo do Conselho de Ribeirinhos, que nasceu após a violência da Hidrelétrica de Belo Monte sobre os ribeirinhos de Altamira, que foram retirados de seus territórios e não tiveram como garantia a volta.

Esse conselho nasceu da necessidade de mostrar quem era ribeirinho. Porque eles não entendiam. Foram obrigados a colocar as famílias de volta em reassentamentos, mas fizeram de uma forma errada. Não sabiam quem era ribeirinho e quem estava ali só para lazer.

Fizemos o reconhecimento social das famílias tradicionais ribeirinhas.

A gente tem enfrentando muita resistência por parte do empreendedor e também muito preconceito por ser uma mulher e estar representando povos, comunidades. São mais de 200 pessoas e mais de 26 comunidades. Muitos não querem ser representados por uma mulher. Isso é um dos grandes obstáculos.

O Fundo Brasil tem nos apoiado muito. A gente não tinha uma estrutura financeira para fazer as reuniões, os debates, as rodas de conversa no Beiradão e o projeto tem nos ajudado muito e levado muitas coisas para frente.

Para muitas das pessoas que são de fora, o Xingu já morreu. Mas para a gente parte dele continua vivia.  Ali por perto do reservatório, não mais, porque é muito visível a coisa da mata morrendo, os peixes não serem mais como eram antes. Mas parte da jusante do Xingu, a gente vê que o rio ainda é vivo.

Para o Xingu voltar a ser como era, só se deixasse de acontecer o que aconteceu, que é a não construção das barragens. Mas isso aí já aconteceu e não tem como evitar. Se destruir a barragem, as famílias de baixo serão prejudicadas. Seriam atingidas. Seria um desastre.

Para o Xingu continuar vivo, a gente tem que fiscalizar, não deixar que novos empreendedores se instalem. Agora vai ter um novo inimigo, que é Belo Sun. É um impacto atrás do outro.

Belo Sun é uma mineradora canadense, que está se instalando na Volta Grande do Xingu, abaixo da barragem, na comunidade Ressaca. Ali moram garimpeiros há mais de 50 anos. Para eles que estão lá será um impacto tanto quanto Belo Monte foi. Em se tratando de mineradora, já é um grande impacto. A gente tem o exemplo de Mariana (MG). Pode acontecer o mesmo por lá. O empreendimento vai tirar as famílias que estão ali, os povos tradicionais.

Ali se encontram indígenas, ribeirinhos, garimpeiros que estão ali há mais de 50 anos, agricultores. Isso aí também é um grande impacto, mesmo que as pessoas pensem sobre Belo Sun se instalar numa área pequena. Mas o impacto pode ser até mesmo maior.

Belo Monte impactou de várias formas. Violentou os laços de parentesco, as famílias, os vizinhos. Eles tiraram as famílias e não deram garantia nenhuma. Para eles, o dinheiro que pagavam, quando pagavam, já era suficiente para compor um novo modo de vida. Mas para quem sabe o que é ser ribeirinho, é saber que não vai conseguir se estruturar na cidade e em nenhum outro lugar.

Esses ribeirinhos que foram retirados da área de Belo Monte moram ali há muitos anos.

Muitas pessoas ficaram com depressão, outros não conseguiram se estruturar, outros morreram – enfartaram na hora de negociar. Isso aí tudo foi uma violação das grandes.

Hoje em dia, o Conselho Ribeirinho bate em cima disso para que essas famílias que perderam seus territórios voltem e sejam respeitadas.

Os povos tradicionais ribeirinhos têm que ser considerados como os indígenas. Hoje em dia os indígenas têm um respeito muito grande, foi uma conquista. Mas os povos tradicionais ribeirinhos não têm tanto isso.

O que deixo aqui é que essas famílias conquistem seus territórios novamente e que os grandes empreendimentos, que se forem instalados em outros cantos, não façam a mesma coisa que Belo Monte.

Entrevista concedida a Cristina Camargo e Simone Nascimento

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