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No funk, mulheres resistem contra o machismo

Rúbia Mara fala sobre o surgimento de frente que defende o feminismo no movimento

20 junho 2018

- por Cristina Camargo -

Rúbia Mara em evento realizado pelo Fundo Brasil no final de 2017 (Foto: Ernesto Rodrigues)

Apoiada pelo Fundo Brasil, a Frente Nacional de Mulheres no Funk se propõe a levar as discussões em torno do feminismo e do enfrentamento ao machismo para o movimento funkeiro no Rio de Janeiro e em São Paulo. Inovador, o projeto mostra que música também é resistência.

Rúbia Mara Silva Oliveira, uma das integrantes da Frente, conta como a ideia surgiu e é desenvolvida. Fala também da importância das mulheres no funk.

O depoimento dela é o quinto da série #Defensorxs, realizada pelo Fundo Brasil e publicada no site e nas redes sociais

Confira:

A Frente Nacional de Mulheres no Funk surgiu numa ideia da Renata Prado, que é dançarina e produtora da Batekoo, e Juliana Martins, que também trabalha com a ideia de direitos humanos, como advogada. As duas se reuniram comigo e escreveram o projeto para o Fundo Brasil para falar um pouco mais sobre as mulheres no funk.

Sou assessora de imprensa, trabalho no funk há três anos. Trabalho na Funk TV, o lugar mais romântico do funk, costumo dizer. É onde a gente conta as histórias dos MC´s. E também fiz assessoria para alguns MC´s.

A gente construiu junto a ideia da frente, para falar com a juventude, fazer discussões sobre direitos humanos de fato.

O projeto tem recorte no Rio e em São Paulo. Há mais mulheres no Rio, como MCs e Djs, mas elas não se falam muito, não têm o lugar da fala. E em São Paulo menos ainda.

Pensando culturalmente, as mulheres em geral foram esquecidas ou diminuídas no que foi criado nessa indústria. O funk todo foi excluído e ainda sofre algumas coisas. Mas a mulher, em especial, mais ainda.

Costumo dizer que isso é um reflexo da sociedade. Então o machismo que se constrói na letra, a construção da mulher e principalmente do corpo da mulher negra é colocado no que já está na sociedade. Só que eles verbalizam e às vezes choca.

No Rio percebemos que até o nome da frente é novo. Não conseguem entender de fato o que viemos fazer. E viemos discutir. Ninguém está falando para não falar sobre sexo. A gente quer falar de uma forma que seja não machista. Por exemplo, temos alguns funks que são extremamente machistas no sentido de falar: vou enfiar algo em você. Ou, no caso, enfiar uma arma. Isso é complicado.

O sexo em si, quando se fala no funk, tem que ser também uma construção conjunta. A partir disso, a principalmente a Renata, que é dançarina e tem o corpo visto a todo momento, o movimento tenta criar o diálogo com as mulheres e com os homens.

Nos homens, há um estranhamento de fato. De uma certa maneira, eles sabiam que isso iria surgir. Eles já estavam meio que preparados.

Costumo dizer que o funk já tem um diálogo feminista, principalmente com as mulheres do Rio. Quando a gente fala em MC Carol, ela não criou o feminismo a partir de uma construção, de um livro. Ela criou para responder a um cara.

“Cê tá me zoando, então vou zoar você”.

E o mercado do funk, que é construído principalmente por homens, respeitou isso. A gente vai criar o diálogo feminista, fazer os homens que estão em destaque cantar melhor sobre as mulheres e sobre a geral.

Sou a primeira assessora do funk – assessoria com mulher e negra. E quem me deu espaço foram dois homens negros, para ser bem colocado. E eles vieram de ação educativa, montaram a empresa deles, perceberam a onda. Um veio do samba e outro do rap. Já tinham uma produtora que falava sobre a temática social, perceberam que o funk tinha um mercado e montaram. Entrei em contato com eles para fazer assessoria e dali começaram a entender sobre esse diálogo.

A Funk TV foi a primeira experiência que começou a colocar a mulher no mercado. Eles começaram a entender que tem que comprar algumas brigas.

Um exemplo foi quando a Renata foi apresentadora, esse ano, do programa da Funk TV, chamado Funk TV Visita. Tivemos na faixa de 50 mil acessos. Colocar a figura da Renata, um corpo negro, com black, falando da forma jovial, foi uma construção de convencimento com a Funk TV.

Nesse mundo do funk, não tem oportunidade melhor para qualquer jovem da periferia – porque é uma das poucas coisas que você pode dormir, acordar e falar: sou MC. Isso, para quem é vulnerável, é muita coisa.

Porque ele não pode acordar e falar: sou advogado. Tem várias construções que levam a isso. Até dá para falar que daqui um tempo vai faltar jogador de futebol. Porque eles querem ser MCs. Se sentem pertencentes a algo e a um movimento. E é um movimento social, econômico, são várias coisas.

A MC Carol é importante. Porque os homens cantam: meu namorado é um otário e lava a minha calcinha. E estão tão acostumados a ter privilégios, por exemplo, no samba Amélia, que também é agressivo, mas passa despercebido. Quando você vê um funk em que ela fala que o namorado lava a calcinha dela e você vê um homem cantando, isso é de extrema importância. Eles entenderam a zoação e que ela está no mercado e a música é legal.

A Carol é o eixo Rio. Tati Zaqui, que é nova, tem 21 anos, veio numa construção muito mais com características de São Paulo. É uma mulher branca, que veio da periferia. Diferente de Carol, mulher negra, do morro, gorda. A Tati ocupou um espaço além do funk, numa capa de Playboy – e foi uma das mais vendidas naquele período.

O funk tem essas contradições. Ela sair na Playboy foi extremamente inovador. E a música dela é “eu que quero”, “eu vou”. Ela se coloca na primeira pessoa e fala que ela paga tudo. É importante também.

Entrevista concedida a Cristina Camargo e Simone Nascimento

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